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| Título: Deuses de Dois Mundos – O Livro do Silêncio | Autor: PJ Pereira | Páginas: 261 |Editora: Da Boa Prosa |
Se você está cansado de ler sobre a mitologia grega e os conflitos entre os três irmãos do poder Zeus, Poseidon e Hades, ou sobre cavaleiros da idade média dignos da Távola Redonda do Rei Arthur, então vou lhe falar sobre algo que possa ser de seu agrado, Deuses de Dois Mundos – O Livro do Silêncio. O primeiro volume da trilogia de PJ Pereira, brasileiro, natural do Rio de Janeiro, que além de escritor é um grande Publicitário e mente por trás da Agência Pereira & O’Dell, que possui um trabalho internacionalmente reconhecido com diversos prêmios na área.
O autor se emprestou da mitologia Iorubá, originária do oeste africano e disseminada pelo Novo Mundo através do sistema escravocrata na América, gerando religiões como Umbanda, Candomblé e outras por entre as colônias européias. Os mitos ou crenças iorubas (depende do que você acredita) são muito ricos e é sempre interessante ver os orixás em ação, espécies de entidades e forças da natureza nascidos da força do Criador, ou seres humanos fantásticos que se tornaram como essas forças e assim converteram-se em orixás.
O livro desenrola-se em duas narrativas diferentes, uma em primeira pessoa através dos e-mails de Newton Fernandes, um jornalista paulista pronto pra usar de toda sua astúcia para subir o degrau do sucesso na sua carreira. Em seus e-mails ele descreve sua vida e estranhas experiências, viagens astrais, onde ele visualiza uma realidade de orixás e guerreiros extraordinários que parecem viver em outro lugar e tempo. New mantém contato com uma pessoa que utiliza o pseudônimo de Laroiê, que parece ter uma melhor noção sobre o que está acontecendo.
A outra narrativa é feita em terceira pessoa e é onde localizamos a verdadeira problemática da trama e a razão das visões de Newton. Orunmilá, o maior de todos os adivinhos, vê seus instrumentos místicos falharem na tentativa de vislumbrar o futuro, isso ocorria não apenas com ele, mas como todos os outros adivinhos. É então que se inicia uma jornada para resgatar o Destino de volta, e para isso, Orunmilá precisará da ajuda de um grupo de guerreiros.
“Do meio da floresta, o adivinho se concentrou. Jogou os búzios. Todos os 16 emborcados numa sinistra mensagem repetida: Silêncio.”
A escolha pela mitologia Iourubá foi genial e em contrapartida gerou certa repulsa para algumas pessoas. É fato que apesar da cultura africana ser basilar na formação do povo brasileiro, ainda existe um preconceito absurdamente grande, um fenômeno que acredito nenhum antropólogo ter conceituado ainda. O choque com o politicamente correto surge em alguns momentos, trazendo uma ideia de honra e dignidade um pouco diferentes do que estamos acostumados, tratando alguns temas como coisas mais naturais, por exemplo, a sexualidade, que é marcante no livro, mas sem torná-lo promíscuo.
“Os dedos delicados continuaram a se arrastar pelo seu corpo marcado pela guerra, arrancando calafrios que o soldado jamais sentira. E foi no meio de um desses arrepios que o Oxum passou os lábios úmidos pelo rosto de um Ogum quase imóvel, não fosse o tremor que vez ou outra lhe desmascarava o aparente controle.”
A cisão de narrativa também gera uma divisória em como nos sentimos ao longo do texto, a vida de um jornalista ambicioso que passa a ter experiências sobrenaturais pode ser interessante até certo tempo, mas depois você cansa de ler sobre suas dicas gastronômicas que são compartilhadas com Laroiê, então é muito mais interessante ver Xangô e sua força descomunal, ou Oxóssi e sua eximia habilidade com o arco. Laroiê, por outro lado, me parece muito estranho, nós lemos apenas os emails de New, então podemos apenas deduzir o que Laroiê escreve, mas sinceramente, quem confia em um guru anônimo na internet? Parece muito forçado, mas acaba sendo aceitável em razão de Newton estar completamente perdido.
Esse sentimento de não saber onde está pisando se torna uma realidade não apenas do jornalista, mas nossa também. Para aqueles que não são grandes conhecedores dessa cultura, como eu, as informações trazidas não nos satisfazem e muitas vezes gostaríamos que o autor se empenhasse mais em nos instruir, acredito que a intenção dele era fazer com que desejássemos pesquisar mais a fundo por nós mesmos, mas não dá pra contar que todo leitor fará isso.
“Um cajado de prata, uma mão negra. Os pés descalços. Um rosto sereno e envelhecido, costas curvadas e joelhos enfraquecidos de um homem que aparentava uns 90 anos. Não sabia quem era, muito menos o que queria. Mas estava lá para me levar a algum lugar. Só podia ser um Deles. E se Eles quisessem me fazer algum mal, já o teriam feito.”
Uma das coisas que me incomodou foi a utilidade nebulosa de Newton, ele parece insignificante em parte considerável do livro, mas se ficar atento irá perceber como ele é fundamental na jornada dos heróis, para compreender isso é preciso que você tenha uma noção de Destino como algo que está muito além de futuro, na verdade esse conceito é apresentado como uma grande roda do tempo, portanto afetando passado, presente e futuro de uma vez só
Algo que pode deixar o leitor confuso ao longo da obra é a utilização dos termos africanos, mas para isso existe um glossário ao fim do livro, aconselho que consulte-o e familiarize-se com ele e não tenha medo do dialeto, as palavras possuem uma fonética forte que dá uma sensação de força para quem lê. E mesmo com essas expressões a leitura é bem leve e fluída nas duas formas de narração, assim o livro acabou bem rápido e fiquei até um pouco frustrado porque estava esperando um clímax mais poderoso.
Em suma, a ideia central é muito boa, PJ realmente demonstrou que é cabível criar uma trama interessante e fantástica a partir de uma mitologia tão menosprezada, contudo o Livro do Silêncio parecer ter um caráter introdutório muito grande, o que deixou a função do protagonista um pouco borrada e sua vida tediosa em alguns momentos. Essas pequenas críticas que deixei ao longo da resenha podem ser sanadas nas continuações do livro que pretendo ler em breve.
Bom, essa é minha resenha e recomendação por hoje, espero que tenham gostado e apreciem a leitura de algo diferente e ainda assim tão presente no nosso país. Vale lembrar que o PJ já vendeu os direitos para a produção de um filme ou série, mas isso ainda está sendo debatido.
Axé* pra vocês! Até a próxima.
Abaixo o link do Book Trailer da obra narrado por Gilberto Gil, na boa, quem é que tem o Book Trailer narrado por Gilberto Gil?!
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*Axé: Termo Iorubá para “energia, força”













