
Livro: A Metamorfose
Autor: Franz Kafka
Editora: Abril
Número de páginas: 78
Kafka é um dos autores mais inquietantes de século XX. Nesta novela, o leitor vive a agonia de uma caixeiro-viajante que, de repente, se vê transformado em um inseto grotesco, em um registro absurdamente realista.
Escritor do século XX, Franz Kafka nasceu em 1883 e morreu em 1924. Ao longo de sua vida, dedicou-se a escrita de obras emblemáticas, que são, verdadeiramente, consideradas, marcos da literatura moderna. Entretanto, mesmo com histórias que exalavam qualidade, o escritor decidiu entregá-las a um amigo e pediu para que ele as destruísse. Felizmente, Max Brod não realizou a vontade de Kafka, e, postumamente, as obras kafkanianas foram publicadas. O fato de o autor pedir que alguém desse fim às suas obras pode ser entendido como algum tipo de problema na forma de enxergar-se a si mesmo. Esse impasse fica evidente ao se conhecer a biografia de Kafka e, também, seus escritos.
A novela “A Metamorfose” conta a frustração de Gregor Samsa, um caixeiro viajante que após acordar de seus sonos intranquilos vê-se transfigurado num inseto gigante, feio e asqueroso, assemelhando-se a uma barata. No entanto, não é somente isso que o livro propõe. Nas entrelinhas da novela, é possível ver a aura de sofrimento e desolação que envolve a personagem principal e, por isso, somente o público geralmente acima dos 13 anos de idade consegue ter uma interpretação mais conceituada do livro.
Não é possível ler sequer uma página do livro em que não haja nenhum tipo de menção à frustração de Gregor, que em sua forma de inseto, sentia cada vez mais nojo de seu próprio ser, de sua própria existência. E, ao manter-se na falta de apoio de algumas personagens da estória – em sua maioria, familiares. Então, Gregor acaba sendo demitido devido à sua nova condição física, e isso só intensifica o agravante da crise de Gregor.
Faz-se necessário notar, então, que ainda no clima de nojo pela própria existência, Kafka traz a já citada frustração de uma forma um tanto quanto minimalista, como se, por exemplo, Gregor houvesse sido contaminado por alguma vírus (quem sabe, AIDS).
É partindo desta ideia de “desimportância” do absurdo, que surgem os questionamentos acerca do que haveria inspirado o autor a narrar a história daquela forma. Kafka escreveu o livro durante a crise da Belle Époque, quando estava em meio a uma crise existencial chamada crise da Modernidade.
De um outro ponto de vista, Kafka lembra também algumas fases da vida, como por exemplo: a adolescência, em que em meio às transformações, é difícil a adaptação do ser humano para que possa se sentir bem em sua nova fase; a velhice, em que o ser humano chega a sentir nojo de si mesmo, por estar incapacitado, à mercê dos cuidados alheios, resultando apenas em problemas e incompreensão.
Com base no sentimento de impotência de Gregor Samsa, podem-se influir muitas coisas, mas nenhuma estará mais correta, se não, a própria citação do autor, em uma carta: “Precisamos de livros que nos afetem como um desastre, que nos angustiem profundamente, como a morte de alguém que amamos mais do que a nós mesmos, como ser banido para florestas distantes de todos, como um suicídio. Um livro tem que ser o machado para o mar congelado dentro de nós.”
Pode-se dizer, assim, que “A Metamorfose” é um livro de poucas páginas, mas muitos conceitos, interpretações e, sobretudo reflexões, que fazem o leitor imergir nas páginas repletas de mistério e ignorância, tanto da parte da protagonista quanto do leitor, que nada sabem sobre o misterioso acontecimento.
A obra é certamente indicada àqueles que sofrem algum tipo de crise existencial, podendo ajudar muito o leitor a lidar com as dificuldades e, mais precisamente consigo mesmo. É ainda imprescindível que todo e qualquer estudante ou simpatizante da psicologia leia este livro, ou não saberá o que é, de fato a crise da impotência.
Esta resenha está participando do Desafio das Mil Páginas. Status: 78/1000

